sexta-feira, 5 de novembro de 2010

MATÉRIA: CONHEÇA A HISTÓRIA DA CASA DE YEMANJÁ (JORNAL TRIBUNA DA BAHIA - 1970)

Segunda-Feira 14 de Dezembro de 1970


O velho Estáquio 83 anos, já quase cego pela catarata e com o coração na mão, é o presidente da casa do peso. Ele conta porque a Casa do Peso surgiu: briga entre pescadores e a igreja fundada por são Pedro um pescador.

A Casa do Peso conhecida como Yemanjá, foi construída em 1919 pelos pescadores da colônia do Rio Vermelho, depois de uma briga com a Igreja. Esta casa sempre teve o objetivo de guardar os aviamentos de pescaria e uma balança , onde todos os peixes pescados em alto-mar são pesados.

Sempre pintada de amarelo, cor das vestes de Yemanjá , a casa do peso, todos os anos, no mês de fevereiro, mas precisamente no dia dois, fica cheia de presentes que são dados à soberana absoluta das águas, “propiciadora de boas e fartas pescarias e de ventos e brisas tranqüilos”.

Dentro da casinha, de aproximadamente 10 metros quadrados façam além da balança e do equipamento de pesca, um altar com uma imagem e um quadro de Yemanjá, chamada pelos pescadores e pessoas do culto do candomblé de mãe d’agua entoando cantigas em toque de Ijexá - toque nigeriano dirigido exclusivamente aos deuses das águas.

Segundo o Sr. Eustáquio Bérnadino de Sena conta que “antigamente, ao lado da igreja de Santana (a antiga) havia uma casinha chamada de peso. Era ali que os pescadores reunião os peixes para vender e pagavam por cada mil réis, um dizimo de sessenta réis à Igreja, que se “sustentava disto”.

Ele disse que os pescadores só foram saber que não deviam pagar nada à Igreja já quando o comandante Pina concedeu uma licença para que eles construíssem uma casinha no terreno da Marinha. Lá onde esta hoje a atual Casa do Peso. Disse ainda que a Igreja não gostou de deixar de receber os “dízimos” e “fez uma guerra contra a gente: botou até a prefeitura em cima da gente”.

O Sr. Eustáquio conta o episódio assim: “Eu como presidente da Associação dos pescadores fui chamado à Capitania dos Portos e o comandante Ribeiro Junior pediu que nós voltássemos a pagar o dizimo à Igreja para fazer as pazes. Informei a ele que os pescadores preferiam ficar com fome do que voltar a pagar à Igreja, pois era hora da gente trabalhar para nós mesmos e não para a Igreja. O comandante conhecendo os direitos, deixou a gente em paz”.

- Naquela época – concluiu o Sr. Eustáquio – cada associado (da associação dos pescadores) pagava mil réis. Depois de fundada a colônia nós construímos uma casa menor do que a atual. Os próprios pescadores catavam pedras, traziam areia e com o dinheiro que antes davam a Igreja a casa foi construída. O dinheiro era colocado no cofre que era aberto todos os meses na presença de todos. Foi com esse dinheiro que construímos a casinha.

O Sr. Eustáquio foi o fundador da Festa do presente de Yemanjá com mais de 28 pescadores. “A Festa do Presente da Mãe D’água “ foi feita pela primeira vez em 1924 por 29 pescadores, dos quais apenas quatro ainda são vivos – disse Eustáquio . Eu Pedro Moita, José moita e Siben Moita”.

Ele conta que na época a pescaria estava muito fraca e os compradores passaram a perguntar à eles: por que vocês não dão presentes para Mãe D’água” – Basilio Cocal, Olavo Ananias e Clemente Tanajura eram pescadores que acreditavam em bruxaria e como a pescaria estava fraca, resolvemos, juntos com eles, dar presentes para a Mãe D’água, apesar de a maioria não acreditar que os pressentes resolvessem os problemas.

Eustáquio Bernadino Sena contou que antes de dar os presentes para a Mãe D’água, os pescadores resolveram mandar celebrar uma missa e em seguida foram levar os presentes:


- Depois da missa que mandamos celebrar a nossa Senhora de Santana , saímos com o presente às 10 horas e às 11 estávamos de volta e brincamos (dançaram o candomblé) até as seis horas da tarde. Distribuímos comidas e bebidas com o povo. A mãe de Santo que organizou a festa dos presentes foi Julia Borgão.

Assim sendo, segundo o testemunho de Eustáquio Bernadino Sena, a primeira festa foi realizada em 1924, para a qual cada pescador contribuiu com uma cota de três mil réis, no ano seguinte, com cinco mil réis. Hoje essa festa tem uma ajuda popular e é conhecida em todo o mundo. Por isso, também a sutursa colabora para o brilho da festa.

Depois que roubaram a balança, que dava para pesar mais de 30 quilos da casa do peso, os pescadores compraram uma balança pequena cuja capacidade não ultrapassava de seis quilos. Esta é a maior queixa dos pescadores que tem um novo organizador da Festa do presente que é o Sr. Flaviano há cinco anos é quem toma conta dessa festa. Ele diz que a primeira festa que organizou introduziu muitas mudanças . Desde o seu tempo é o barco Filho das águas quem conduz os presentes para o alto-mar.

Este ano (1970), segundo o Sr, flaviano, o presidente principal da festa (o presente exclusivo dos pescadores) foi uma cisterna com três sereias Yemanjá, Nanan e Oxum – Dentro. Este presente custou Cr$ 650,00.

Yemanjá também chamada de Mãe D’água, Janaina, Mãe de Todos os Deuses é confundida com o mito da sereia. Quem diz isso é o pesquisador Nina Rodrigues em seu livro “Os Africanos no Brasil”: “Em geral a concepção de Yemanjá se confunde com o da Mãe D’água e o da sereia sob cuja efígie a representam”.

Já Edson Carneiro diz as diferenças entre Yemanjá e a Sereia são: “A Sereia mora embaixo do mar e Yemanjá habita os rios, fontes e lagos. Esta é a mãe e Esposa, enquanto a sereia é uma estranha amante submarina. Yemanjá Simboliza a fecundidade, a reprodução de espécie, enquanto a sereia é a mulher fatal, que com seu amor trás a morte.

Yemanjá vem ao encontro dos homens nos candomblés ao passo tem de ser seqüestrada e solicitada com presentes nos seus vastos domínios marítimos”

Foi Manuel Quirino quem escreveu e deixou o testemunho mais antigo sobre a pratica de doar presentes aos deuses do mar: “ Um pequeno saveiro de papelão armado de velas e outros utensílios de náutica era lançado no mar conduzindo como dádiva, Mãe D’água, figura ou bonecas de pano, milho cozido, inhame com azeite de dendê, uma caneta de pena e pequenos frascos de perfume”.

É ainda Manoel Quirino quem lembra que no terceiro domingo de dezembro “Foram gente dos candomblés realizavam diante do forte de São Bartolomeu, sob a direção do Tio Ataré, enchendo-se numa grande talha de barro, que se atirava ao mar com pentes, frascos de pomada, frascos de cheiro, côvados de fazenda, e outros presentes dados por centenas de africanos”.

Já a etnologa Ana de Sousa Santos, angolana, diz que “ainda há bem poucos anos os habitantes da Ilha de Luanda, faziam oferendas de comidas e bebidas, as quais eram lançadas ao ma, bastante distantes da costa a fim de que Kianda (gênio das águas, que controla toda a costa) tornasse mais dadivoso o peixe do mar”.





M. H. CHAVES MATTOS





ESTÁ MATÉRIA FOI PUBLICADA NO JORNAL “TRIBUNA DA BAHIA” DO DIA 14 DE DEZEMBRO DE 1970.





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