terça-feira, 15 de janeiro de 2013

UMA GÉRBERA AMARELA NA MINHA VIDA!


Fui agraciado por uma linda flor amarela chamada mãe Gérbera. Ela vive plena, linda no canteiro do jardim. A Gérbera sempre foi minha companheira em todos os meus momentos da vida. Porque mesmo distante e solitária naquele jardim, ela é a mais bela das flores. Eu olhava admirava e não deixava ninguém tocar, não por egoísmo, mas por um genuíno amor! Regava com desvelo para proteger do sol. Daquela linda flor, eu presenciava brotar cada nova semente. E via nascer e crescer sempre uma nova esperança. Mesmo sem entender e compreender o motivo de eu estar ali, aqui ou acolá.

Aquela florzinha tão jovem despreparada pra assumir tanta responsabilidade... Sempre grandiosa na sua sabedoria e majestosa na sua dignidade de ser mãe. Como eu gostaria de poder sentir o perfume naquela linda flor todos os dias. Com suas pétalas douradas... Pelo raio de uma luz peculiar! Eu sempre vou ter oito anos e ela sempre será a minha amada mãe Gérbera, formosa e generosa. Essa é a história do meu canteiro do qual eu sou a primeira semente da Gérbera.




 Eu aos 8 anos












































Fotos: Luciano Lucci Ramos


É PROIBIDA A REPRODUÇÃO, TOTAL OU PARCIAL, DO CONTEÚDO DE TEXTO E FOTOGRAFIA, SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO DO AUTOR DA OBRA. PROTEGIDO PELA LEI 9.610/98.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

UMA NARRATIVA DO SÍTIO BOM SOSSEGO - SENHOR DO BONFIM -BAHIA



Capitulo I



Nasci no município de Senhor do Bonfim na Bahia. Depois do primeiro suspiro já fui pra capital baiana morar na beira do mar... Mas a história aqui não é exatamente a minha biografia. O foco é o sítio dos meus avós maternos localizado no horto no município de Senhor do Bonfim na Bahia, que carinhosamente denominamos de Sítio Bom Sossego. Fui o primeiro neto a conhecer aquelas terras cheias de pirilampos e vaga-lumes. “Nunca vi tanta borboleta na minha vida!” foi a primeira frase que disse quando cheguei ao local. Corri para o jardim e avistei um arbusto ou arvorezinha (como chamava na época), tinha frutos cor de laranja, era a primeira vez que conheci a fruta romã.


Para uma criança que veio da cidade grande aquilo era inusitado. A Disneylândia não me parecia tão interessante como aquele sitio. Partir, em direção a horta que tinha um boneco gigante, trajado com uma camisa azul-celeste e chapéu de palha (espantalho), observei que todos os passarinhos tinham medo daquele homem que não se movia. Até eu ficava meio receoso de chegar perto. Legumes e verduras faziam parte daquele cenário com muitas berinjelas, chuchus, quiabos, tomates, cenouras, batatas, jilós e maxixes (esse era o predileto da minha avó). O aroma do coentro, manjericão e da hortelã exalava por toda a horta.


No terreiro tinha um curral com um estábulo para os gados e cavalos. Ali eles geralmente ficavam para dormir e alimentar-se. Eu ganhei uma vaquinha com manchas vermelhas e magrela. Foi presente do meu avô que logo quando a coitada engordou foi morta para ser devorada num churrasco. A minha tristeza era por dois motivos: o primeiro que considerava da minha propriedade (assim eu achava), segundo que foi servida no almoço. Acabaram-se as férias retornei para a Capital, pensando em voltar, no ano seguinte, mas contente e ávido para sintonizar a televisão (que naquela época era luxo). Os meus programas favoritos incluíam: Batman, Homem-Aranha, Terra de Gigantes, A Feiticeira, Jeannie é um Gênio e O Homem de Seis Milhões de Dólares.



Eu, minha amada mãe, avó, irmãos e primos


Capitulo II


Começava a quaresma e com isso a reforma total do sitio. Casa nova e residências para os empregados. Na entrada do sitio tinha a cancela e defronte havia uma árvore chamada barriguda (paineira-branca) por ter casca com espinhos no tronco e galhos, era bem gorda no caule. As estórias mal-assombradas começavam ali. Todos viam fantasmas próximos à árvore (eram muitos “causos” como chamavam os moradores da região). A família e os amigos se reuniam na varanda para contar casos como: alma penada, sacis, caiporas, lobisomem e encantados.

O jardim e a horta estavam mais bonitos e maiores. A suave fragrância que vinha das plantas da erva-doce, trazia uma sensação aprazível. Defronte da casa tinha muitas laranjeiras e limoeiros. O viveiro amarelo não tinha passarinhos (graças a Deus!). Os pássaros são para serem livres, têm que cantar e voar! Começava o entardecer, era hora do asseio, e todas as crianças adoravam tomar banho em cima de uma pedra com mangueira. Naquele ano as estrelas brilhavam como purpurina no céu. Eu sempre atrás dos cometas... (E olha que nunca pensei em ser astrólogo quando crescesse)..

As luzes dos candeeiros se misturavam com o cheiro do querosene. As folhas dos abacateiros, mangueiras, laranjeiras e bananeiras faziam miragens de “mula sem cabeça” e “caipora” (mulher espírito, que faz as pessoas se perderem no mato). Quem disse que depois eu dormia...? Nos primeiros raios do sol, os barulhos dos chocalhos soavam com uma doce melodia, era hora de leite espumante vindo do curral. Na cozinha tinha uma janela azul e uma enorme mesa de madeira maciça da cor verde com uma gaveta no centro da lateral. O café era servido com muito queijo, coalhada, cuscuz com ovos e tapioca. Depois eu corria para o pomar para colher goiabas brancas e vermelhas, araçá, carambola e figos. O lugar era repleto de bananeiras com variedades de bananas, limoeiros, abacateiros, tangerineiras, videiras e cacaueiros.



Minha mãe, irmãos, avós e tios
Capitulo III





Chegou o novo ano, que foi um dos mais marcantes. O sitio era festa sempre! Muita música na vitrola, é claro que eu não abria mão dos meus discos da Rita Lee “Fruto Proibido e Tutti-Frutti”, trilha sonora da época! O aparelho de TV e a luz eram novidades naquele ano. “Escrava Isaura” dominava o horário das seis, “Estúpido Cupido” das sete, das oito “O Casarão” e finalmente a novela que deixava todos nós morrendo de pavor e medo, “Saramandaia”. Só assistia no colo da minha avó, lembro que ficava assustado com o professor Aristóbulo que virava lobisomem. Pois meus pais resolveram ir pra Capital e me deixaram com meus irmãos nas férias. Quando sentia saudades da minha mãe, corria pro jardim da frente da casa para regar uma gérbera de cor amarela, fazendo de conta que era ela que estava ali, naquele momento.

A minha avó sorria e ficava comovida com tamanho carinho que eu tinha pela flor do canteiro. Lembro-me que costumava subir no abacateiro até o topo, para avistar a cidadezinha do alto da colina. Só para observar se algum carro aparecia, trazendo os meus pais. Enquanto não acontecia, resolvi fabricar um foguete para ir ao encontro deles na Capital, com um tronco de mamoeiro. Finalmente apareceu o carro e eu pulava do abacateiro que tinha em torno de 5 metros. E corria ansioso em direção a cancela, para esperar cheio de alegria o retorno dos meus pais. Minha mãe havia trazido pra mim o novo disco da Rita Lee (Entradas e Bandeiras), achei a Rita linda na capa, com aquele passarinho no ombro. Que felicidade!! O Natal do Sitio no mesmo ano foi fabuloso.

Tivemos além de toda a família reunida a presença de uma tia-avó que até então eu não conhecia e mais um novo membro. O nosso irmão caçula que vestiu uma roupinha vermelha pra comemorar o Natal de braço em braço. A trilha sonora daquela noite embalava nas músicas natalinas. Ouvimos e dançamos com o vinil do grupo “Os Doces Bárbaros” com Gal, Gil, Caetano e Bethânia no toca discos. A árvore de natal prateada enfeitada com bolas lilás, um lindo bolo natalino branco imitando a neve e muitas bolas coloridas acompanhado de doces e presentes. Papai Noel foi generoso naquele Natal!


Era uma noite de verão com bastantes vaga-lumes voando nas folhagens (de novo os vaga-lumes). Eu adorava pegar os insetos e colocar dentro de uma garrafa para fazer uma espécie de lâmpada para dormir no escuro, apreciando aquelas luzes verdes que me hipnotizavam com a simplicidade e riqueza que só a natureza nos proporciona. Na madrugada era comum o galo correr ao redor da casa, bater as asas e cantar, anunciando a aurora. Foram muitas historias daquele maravilhoso Sitio do Bom Sossego que só através de um livro para caber.


Minha mãe, avós, irmãos, tios, primos e amigos

Ultimo capitulo



Começava um novo ano, novas férias e mais uma aventura no Sitio Bom Sossego. A fartura das mangas como manga rosa, manga coquinho, manga espada, manga coração-de-boi (Bourbon) e manguita, causavam uma comilança que ia até a noite. A família e os amigos se reuniam para jogos de baralho na copa, com muita pinha (fruta do conde). Adorava adormecer no quarto próximo da copa só pra ouvir os adultos conversarem (sempre curioso). Os passeios de Rural (carro da época) nos levavam ao Rio da Lajinha e aos municípios da redondeza. Adorávamos visitar uma tia que morava numa fazenda distante, para nos banhar nas águas do rio.

O retorno do passeio era magnífico. O cheiro do juazeiro misturado com a munguba finalizava a chegada com o rugido da cancela e o canto da cigarra. Ao redor de tanta beleza cai o crepúsculo abrindo os sinos da tarde (trombeta) flores da cor branca, rosa e amarelo com formas de sino, exalavam um perfume inebriante ao redor da casa. Libélulas sobrevoavam as poças e ao tanque grande como pequeninos helicópteros (assim eu achava). O jardim era um grande tapete de flores amarelas com muitas targetes e margaridas (um verdadeiro reino para as borboletas). Era um colírio para nossos olhos. O cercado sempre rodeado de flores como: erva-de-santa-luzia (uma flor medicinal da cor azul com duas pétalas) e as coloridas onze-horas.

As noites de lua cheia no Bom Sossego faziam o terreiro brilhar. Às vezes parecia até dia, de tão clara que era. Os grilos e sapos faziam aquele barulhinho noturno que eu sempre achei que combinavam com a orquestra da natureza noturna. As gotas de orvalho cintilavam nas flores e folhagem. Nas festas juninas o cheiro da canjica, amendoim cozido, bolo de fubá e aipim, inebriavam a cozinha e o resto da casa. Até as laranjas ganhavam enfeites com rostinhos e trancinhas, o festival de licores de jenipapo, maracujá, pitanga e o especialíssimo licor de rosas (feito com pétalas de rosas) que minha avó esmeradamente fazia.

Todo o cenário junino combinando com a nossa alegria junto aos balões e bandeirolas coloridas por todos os lados. O milho assando na fogueira que de tão vermelha saia faíscas... Era delicioso! Os fogos pipocavam e brilhavam com chuvinhas de prata. E na manhã seguinte as cinzas do São João deixavam sua marca de saudade no terreiro do Sitio Bom Sossego. Afinal todos nós tivemos uma infância digna e feliz que toda criança tem o direito de ter.


Dedico esse texto a memória da minha avó Neném (voinha)


LEMBRAÇAS FOTOGRÁFICAS LUCIANO LUCCI RAMOS


SINOS DA TARDE BRANCO (TROMBETA)



SINOS DA TARDE AMARELO (TROMBETA)




A FLOR DA ROMà





ÁRVORE BARRIGUDA    (PAINEIRA-BRANCA)

BARRIGUDA (PAINEIRA-BRANCA)  

CAMINHO DO PONTILHÃO - SENHOR DO BONFIM-BA


ESTRADA DO SÍTIO



ESTRADA DO SÍTIO BOM SOSSEGO 

 
ATUALMENTE:  RUÍNAS







SÍTIO BOM SOSSEGO (apenas a lembrança do passado)  





TARGETES






FLOR-DE-SANTA LUZIA

TRAPOERABA-AZUL, MARIANINHA OU ERVA-DE-SANTA-LUZIA



Fotos:Luciano Lucci Ramos


É PROIBIDA A REPRODUÇÃO, TOTAL OU PARCIAL, DO CONTEÚDO DE TEXTO E FOTOGRAFIA, SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO DO AUTOR DA OBRA. PROTEGIDO PELA LEI 9.610/98.