segunda-feira, 12 de maio de 2014

MINHA DOR, MINHA ESCURIDÃO, MINHA ILUMINAÇÃO (DEPOIMENTO DE LUCIANO LUCCI RAMOS)



Não sei se era “Tabu” a palavra correta para ajudar a resguardar tanta dor, ou os meus próprios padrões morais… talvez não. Jurei que um dia quando me sentisse confortável poderia falar sobre o assunto. É claro que confortável nunca ficarei, mesmo porque a eterna escuridão do olho direito não deixa esquecer. No dia 5 de maio de 2011, aproximadamente às 17h40 eu estava na ciclovia em Curitiba. Pedalava minha bicicleta como saudável hábito, quando o veículo TUCSON conduzido de forma imprudente por uma mulher que julguei, desalmada, cruel e fingida… conceito meu, para um facínora! Ela estava ao celular e com pressa, avançou o sinal vermelho, subiu a ciclovia onde eu passava, me atropelando. Com a colisão fui arremessado para alto, bati a cabeça no impacto da queda. Além de uma frustrada tentativa de fuga da parte da criminosa, incluindo um teatro tão canastrão quanto a própria transgressora. A mesma, não prestou socorro, mas ficou detida ao local. A fita de sangue no capô do carro até hoje foi a única lembrança perdida que tive daquele trágico e fatal momento. Fui socorrido por moradores do bairro, enquanto aguardava o paramédico e a polícia. Sofri quatro cirurgias ao todo; contando com duas de vitrectomia, que é remoção do vítreo trocando por gás, nos dois olhos. A primeira para tentar salvar a visão do olho direito que teve rompimento da retina. A segunda para evitar a “Enucleação” procedimento cirúrgico onde o globo ocular é totalmente removido e substituído por prótese. Passei quarenta e cinco dias de cada procedimento cirúrgico, em repouso, na escuridão absoluta, literalmente sem enxergar, e ainda de cabeça para baixo. Pois dessa maneira evitaria o movimento da retina. Eu não podia ver a luz, nem pegar um copo d'água, por ser pesado demais para carregar até a boca. Dores infernais, parecia que perfuravam o meu cérebro com britadeira. Conclusão: um gasto financeiro além das minhas possibilidades, com medicamentos, terapias e cirurgias. É claro, que não tem preço, a esperança de voltar a enxergar. Quando fui retirar a ligadura: chegou ao meu conhecimento uma notícia que me deixou estraçalhado emocionalmente. Infelizmente não houve êxito em salvar a visão do olho direito. Com a perda total da visão do olho direito me senti debilitado em todos os sentidos. No laudo, constava a paralisação total e atrofia do globo ocular.Tive que fazer outra cirurgia para salvar a estética do olho. Fui informado pela equipe medica que seria doloroso o procedimento cirúrgico; tivemos sucesso total. Foi um milagre do medico eu continuar com o olho que nasci. Esteticamente eu agradeço todos os dias, até quando sinto que respiro profundamente, eu penso: “que bom poder mover o meu olho, por não ter paralisado... por não ter perdido…”. Porém fui avisado pela equipe do Hospital dos Olhos do estado do Paraná, que era provável que acontecesse no olho esquerdo. Fui ao Rio de Janeiro liberado pelo medico, depois de noventa dias, para fazer um trabalho jornalístico. Quando retornava da cidade maravilhosa, passei mal na aeronave. De repente uma sensação de impotência, quase me levava ao pânico. Talvez pela pressurização do avião, não sei... Mas tudo começava a escurecer novamente. Era o único olho “vivo” que me restava, avisando que tinha algo errado. Cheguei em Curitiba e fui direcionado para o centro cirúrgico, resultado: fiquei ciente que era um descolamento da retina. Meu Deus… tudo novamente?! Era um pesadelo que não tinha como acordar… Desmaiei com a notícia; chorei igual uma criança; mas com grande diferença; era choro de dor profunda; como nunca chorei na minha existência. Até hoje não consigo identificar que dor era aquela. O resultado...? Mais quarenta e cinco dias de padecimento, sem enxergar nada. Quarenta e cinco dias na escuridão; que para mim era as trevas do inferno. Se alguém conheceu o inferno…? é assim! Incontestável, muita dor no corpo e na alma, sem um facho de luz para aliviar. Depois dos quarenta e cinco dias, fui notificado que era preciso em caráter de urgência a segunda cirurgia do olho esquerdo. Tive que implantar uma lente, vinda dos Estados Unidos, com o prazo de validade de noventa anos. Todas as quatro cirurgias com anestesia geral, acompanhada de uma pressão emocional. Eu não aguentava mais tanta sede… tanta tortura psicológica… tanto terror… tanta dor. Passei quarenta e dois dias convalescendo. Sendo que dez dias fiquei sem enxergar. Pelo menos foram só dez. Existe o Luciano anterior ao acidente (esse faleceu naquele momento) e o Luciano posterior (renasceu no mesmo momento). Depois de cento e setenta e sete dias de escuridão: Muitos conceitos… afetos… apego… medo… passou por um metamorfismo evolutivo. Fiz várias sessões de terapia para superar o trauma. Tinha semana que eu comparecia quatro vezes. Sentia-me injustiçado, fiquei igual a um cão raivoso, hostil com tudo e todos, tinha crises de ansiedade, surto e pânico que me levaram a uma profunda depressão. Cai no poço dos medicamentos pesados... “Tarja preta” era sopinha... Passei dois anos tomando remédios. Antes do acidente, eu só usava suplementos vitamínicos. Quando vi o mundo pela primeira vez, depois da escuridão; tudo era mais colorido e em imagem “FULL HD”. Fui contemplado com uma segunda chance. Aprendi que a superação só depende de nós mesmos. Deus é supremo!

                                                                                                            Luciano Lucci Ramos
                                                                                                                         12/05/2014

























Foto: Luciano Lucci Ramos


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